quinta-feira, 14 de setembro de 2017

GUIA DE LEITURA - PARA CONHECER O PUNK ROCK




Muitos críticos dizem que tudo começou nos EUA, ao som das guitarras destrutivas dos Stooges e com as poesias de Patti Smith.Podemos dizer que pela ordem cronológica foram os americanos, mas muitos acreditam que foram os ingleses que deram a forma e o sentido para o movimento. Seja como for, mesmo em sua curta vida, é inegável a transformação que o cenário musical sofreu após o surgimento do punk rock. 

“Punk” era o nome de uma revista/fanzine escrita por fãs de rock, sem nenhuma experiência jornalística, feita totalmente na raça. As matérias eram sobre comportamento, artes e as novas bandas da época: Velvet Underground, New York Dolls, MC5, Television, Talking Heads, Ramones.

Não existia um movimento, uma nova ideologia ou algo parecido. A musica naquele momento estava apenas se transformando em algo mais poético, violento ou visceral. O musica “paz e amor” não fazia mais sentido, a guerra do Vietnã estava perdida, os ídolos daquela época começam a morrer : Janis, Jim e Jimmy.

Na década de 1970, a juventude não acredita em mais nada, as drogas tomam conta do país. Heroína, cocaína, LSD, anfetaminas e outras drogas, começam a fazer parte do dia a dia das metrópoles. No principio são como canalizadores para experiências extra-sensoriais e “ajudam” no processo criativo...mas nós já sabemos como isso termina, não é mesmo?

No outro lado do Atlântico, a velha UK estava carente por um cenário musical. Muita psicodelia sem sentido, muitas musicas com solo de guitarra de 5 minutos.A juventude também estava frustrada; sem emprego, sem lugar para morar e sem futuro.

Quando o jovem empresário britânico Malcolm McLaren levou os New York Dolls para o Reino Unido ele deu o primeiro passo para a criação de uma nova geração musical. Os New York Dolls fugiam dos padrões tanto em sua musica quanto em seu visual. Eles atingem o sucesso na Inglaterra e logo após conseguem certa notoriedade em seu próprio pais, EUA . Mas as drogas são mais importantes para alguns membros do grupo e eles se separam logo após seu segundo álbum.

Depois de assimilar o que estava acontecendo nos EUA, Malcolm McLaren volta para a Inglaterra e pensa: “Porque não criar um movimento e também uma banda?” O nome estava lá o tempo todo: PUNK e a banda: Sex Pistols.

Durante os anos de 1975 até 1977 os jovens ingleses tomam dos EUA o movimento da contra cultura. Manifestam sua fúria contra as políticas já estabelecidas, a pobreza, a falta de futuro e a monarquia. A música torna-se uma arma, as roupas uma afronta contra a sociedade.Existe uma coerência dentro do caos, um porquê da revolta e da frustração.

Os Sex Pistols aparecem no cenário musical, sem um álbum, apenas com alguns “singles” e os polêmicos shows que criam a áurea necessária para virar tudo de ponta cabeça. Eles são sujos, feios, não sabem tocar instrumentos ou cantar. As letras possuem uma mensagem simples e clara : Foda-se tudo porque nós já estamos fudidos.

No livro “Mate-me por favor” fica claro que os americanos querem puxar a “sardinha” para eles, que se consideram os "únicos" criadores do punk, desde a sua concepção até sua morte. Muitas bandas inglesas importantes que surgiram nessa época não são citadas : Generation X, Siouxsie and the Banshees, The Dammed, Joy Divison. 

Até o The Clash, que fez mais sucesso nos EUA do que em seu próprio pais virou apenas uma nota de rodapé ! O capitulo sobre os Sex Pistols no livro é um dos mais curtos, onde o foco é voltado para o amor destrutivo da groupie Nancy Spungen e o baixista Sid Vicious.

Indiferente de qualquer rivalidade, o livro continua sendo um dos registros mais completos, que começa em 1967 e vai até 1980. Quem conta as historias são os integrantes das bandas, empresários, rodies e também as groupies. As entrevistas são transcritas em ordem cronológica e sempre fazem as conexões com o próximo personagem. É quase como ver um documentário, o que é muito bom pois não existe um narrador que possa desviar sua atenção com opiniões, acrescentando ou omitindo informações. 

Também existe as “verdades” que cada um desses personagens quer contar; as melhores histórias, sem dúvida, são dos Ramones e do genial Iggy Pop.   



 “Alguém come centopéias gigantes?” é um dos melhores livros que li até hoje sobre o punk underground americano. “Alguém ...”  é uma compilação de entrevistas publicadas pelo zine independente chamado “Search & Destroy” entre 1977 -79. São 15 entrevistas conduzidas pelo editor, escritor-entrevistador e faz tudo V.Vale. Aliás quem selecionou as entrevistas foi ninguém menos que nosso Reverendo Fábio Massari !

Importantes artistas, tanto na musica, artes e literatura estão no livro : Patti Smith, The Cramps, The Clash, Burroughs, J.G Ballard...  E , mesmo que você não conheça todos, a descoberta dessas figuras singulares através das entrevistas podem abrir as portas da percepção para novos e inusitados mundos.  

No Brasil o movimento punk demorou para acontecer. Assim como na Inglaterra, a musica atingiu principalmente os jovens da periferia, aqueles que pararam de estudar para trabalhar e pagar as contas de casa. Existia uma mistura de fúria e frustração de uma juventude desiludida com o presente e com medo do futuro.

Época complicada para todos os brasileiros que  viviam com as mudanças políticas e sociais. A censura ainda existia, os militares davam as ordens ao mesmo tempo que a ditadura dava os últimos suspiros.

O escritor Marcelo Rubens Paiva conta com maestria, como era ser jovem nessa época no livro “Meninos em Fúria”. Inicialmente uma biografia do vocalista Clemente da banda Inocentes, virou uma espécie de documentário biográfico dos dois amigos que se conheceram no começo do movimento punk paulistano em um show na USP.

Os primeiros capítulos são quase mini-aulas de história, onde Paiva conta sobre o momento político e cultural da época. São cronicas de uma época onde nem tudo era bacana e colorido como Rock'n'Rio, Blitz e RPM... O rock em SP era sangue nos olhos, as letras, em tom de discurso, eram contra o governo, a censura e repressão da ditadura. Existia a rivalidade e os confrontos entre o pessoal do ABC e da capital, que sempre terminavam em brigas feias. 

Paiva escreve de forma rápida e direta, enquanto Clemente está mais para um diário de lembranças. Isso não tira o mérito do livro, é bem interessante ter estes dois pontos de vista. Vale a pena ler por ser um registro muito bom do começo do punk no Brasil. Mas por outro lado, faltam mais informações e outras vozes dessa mesma época. É lógico que o foco é a vida do Clemente, só que, nos ultimos capítulos algumas informações sobre a vida dele são bem desnecessárias...como por exemplo; onde a filha dele estudou !

Que esse livro dê um start para que outros títulos sobre o rock/punk/metal brasileiro sejam publicados.
Hey Ho let’s Go !! 



MATE-ME POR FAVOR ( A HISTÓRIA SEM CENSURA DO PUNK)
AUTORES : LEGS MCNEIL & GILLIAN MCCAIN
EDITORA : L&PM
ISBN : 9788525407375

ALGUÉM COME CENTOPIAS GIGANTES ?
AUTOR : V. VALE  ( ORG: FABIO MASSARI )
EDITORA : EDIÇOES IDEAL
ISBN : 9788562885419

MENINOS EM FÚRIA – E O SOM QUE MUDOU A MÚSICA PARA SEMPRE
AUTORES : MARCELO RUBENS PAIVA & CLEMENTE TADEU NASCIMENTO
EDITORA : ALFAGUARA
ISBN : 9788556520258

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

MINI GUIA DE LEITURA - "Mr.Mercedes" de STEPHEN KING



Stephen King possui os títulos de mestre do terror e do fantástico.
E alguns de seus críticos mais ferrenhos gostam de um outro titulo: mestre da embromação.

Mas somente nós, seus fieis fãs, que dedicamos horas e horas lendo seus livros sabemos que King também é mestre em criar personagens que parecem tão reais e juntar duplas ou grupos tão improváveis mas que sempre dão certo. 

Alguns exemplos:
* Um pistoleiro sem os dois dedos da mão direita, um viciado em heroína, um menino de treze anos com seu guaxinim/cachorro de estimação e uma mulher sem as duas pernas (Torre Negra)
** Uma das duplas mais incríveis: um surdo mudo e um rapaz com problemas mentais (Dança da Morte) 
*** E uma amizade entre um banqueiro e um criminoso que não aconteceria fora das grades da prisão de Shawshank (Um sonho de liberdade)

     
Roland e seu Ka-Tet _Art by Jay Anacleto /  Tom e Nick art by Mike Perkins /  Filme: Um Sonho de Liberadade




Com a trilogia de Mr.Mercedes não poderia ser diferente, um policial aposentado e em péssimo estado de saúde, um jovem universitário e uma mulher com problemas de ansiedade e transtornos compulsivos.


Sobre a trilogia Bill Hodges :

Um dia Stephen King acordou e se deu conta que nunca escreveu um livro policial no melhor estilo de Sherlock Holmes ou desenvolveu alguma história com os elementos: assassinato, seguir pistas, juntar evidencias e solucionar o caso. Mas, pera aí...estou falando do mestre e ele nunca vai fazer algo convencional.

Cada história tem começo, meio e fim.
Se você não leu o primeiro livro “Mr.Mercedes” pode ler o segundo “Achados e perdidos” sem problema algum, já o terceiro “Ultimo Turno” é a continuação do primeiro, mas se você não leu nenhum dos anteriores vai entender a historia mesmo assim. Acredite, somente quem é mestre na escrita consegue esse feito.

“Mr. Mercedes” 
 Existe o fator sangue na espinha quando você lê “Mr. Mercedes”.
De uns tempos pra cá, vemos nos noticiários vários atentados terroristas em que um louco fundamentalista (ou só louco mesmo) pega um carro e atropela o máximo de pessoas que consegue.
Quando SK escreveu este livro alguns casos haviam acontecido, mas parece que agora esse numero aumenta cada vez mais, infelizmente. Será que ele previu o que iria acontecer nestes últimos anos? 

Podemos considerar o livro como o convencional policial gato e rato, só que desde o começo sabemos quem é o assassino. Então você me pergunta; “Qual a graça se já sei quem é o cara?” Ahh... você não faz a menor idéia da sua motivação e durante a história a coisa fica bem estranha, bem estranha mesmo...vai por mim. Nas ultimas vinte páginas SK dá uma virada na história e consegue escrever um dos finais mais incríveis e de tirar o fôlego para um livro de suspense.

“Achados e Perdidos”
A história gira em torno de livros, escritores e seus fãs. Mesmo com um começo muito bom o resto do livro não traz grandes emoções.O mínimo que posso dizer é que ele se arrasta bastante e tem vários momentos “flash backs” do primeiro livro. Se você ler logo na seqüência pode perder o entusiasmo na leitura. O ponto positivo é que conhecemos melhor o detetive Bill Hodges e sua assistente Holly Gibney e criamos uma empatia com os personagens. Só assim pra chegar até o final da historia, triste...  

“Ùltimo Turno”
Voltamos à historia do assassino da Mercedes, Brady Hartsfield. E agora sabemos que durante seu coma, ele desenvolveu poderes paranormais. É isso mesmo! Era pra ser uma uma thriller policial mas parece que SK não consegue deixar o terror de lado. A história é boa, com alguns elementos no estilo “já li ou vi isso antes” mas nada que compromete a leitura.O que mais achei interessante ou bizarro, foi a maneira que o assassino entra em contato com suas vitimas para que elas cometam suicídio. Na época que comecei a ler “Ultimo Turno” o desafio do “jogo” Baleia Azul já tinha feito algumas vitimas e estava se espalhando pela mídia de forma assustadora. Impossível não ver um paralelo com a historia e isso deixa uma pergunta no ar ...Será que Stephen King previu o futuro? De novo ???


MR MERCEDES
ISBN : 9788556510020   

ACHADOS E PERDIDOS
ISBN : 9788556510075

ULTIMO TURNO
ISBN : 9788556510181

AUTOR : STEPHEN KING
EDITORA : SUMA DAS LETRAS

terça-feira, 1 de agosto de 2017

MY TAKE ON ME - MORTEN HARKET





A importância do A-ha no cenário musical synthpop/tecnopop é inegável.
As más línguas dirão que eles só conseguiram ter sucesso por causa dos vídeos clips ou por seus rostinhos bonitos... pura inveja.

Eles tiveram seus altos e baixos, é verdade. Os álbuns lançados na década 1990 são no mínimo equivocados e esquecíveis, com exceção de três ou quatro músicas.

As carreiras solos? Deixa pra lá...ficaram em um limbo musical por quase 8 anos quando finalmente lançaram o ótimo “Minor Earth Major Sky”.

No livro “My take on Me” o vocalista Morten Harket explica de forma discreta este hiato depois do sucesso mundial na década de 1980 até a retomada da banda no começo dos anos 2000.

Discreta? Sim. Porque se você espera por barracos, lavação de roupa suja no estilo “Casos de família” esqueça! Esse livro passa bem longe disso.


Na verdade, os primeiros capítulos lembram bastante os livros de outro norueguês; Karl Ove Knausgard -“A morte do Pai”. O cenário e época são os mesmos, década de 1970/80 na bela cidade portuária de Kristiansand.

Em um tom bem introspectivo, Morten conta que sofreu bullyng em sua infância:

“O pior do bullying psicológico é achar que os agressores estão certos de alguma forma. Uma parte de mim não gostava da minha aparência, de como eu falava, de eu não ser capaz de me expressar bem . Esse desejo de se encaixar e de ser amado é muito forte – e é muito difícil não ser convencido por ele. Eu estava disposto a vender algo de mim mesmo para obter reconhecimento. Ao mesmo tempo, tinha consciência do que estava fazendo, através de vislumbres de mim mesmo , bancando o cão submisso, que tentava agradar aos outros. O fato de que não me dobrei completamente às exigências vinha da confiança dentro de mim, que só reconheci tempos depois.” 

“Jamais pensei em suicídio, mas consigo entender porque o motivo pelo qual as crianças nessa situação levam isso em consideração.Pode ser um lugar muito solitário, suspenso no tempo, sem luz no fim do túnel”  

O refugio de Morten para essas perseguições constantes dos “colegas” de escola foi na natureza.
Aprendeu a cultivar orquídeas, colecionava de borboletas e depois começou a levar para casa alguns animais não tão convencionais como mariposas, lagartos e jabutis.

A musica estava presente em sua vida desde criança mas nunca foi sua primeira opção. Antes o cantor entrou no exercito, começou a estudar a bíblia e pensou em se tornar ministro da igreja ! Começou a cantar em uma banda de covers mas sem futuro algum e foi nessa época que conheceu Magne Furuholmen e Påul Waaktaar, que também tinham uma banda sem futuro algum. O sonho de fazer sucesso fora da Noruega começa a tomar forma quando o trio vai para Londres, na tentativa de conseguir um contrato com alguma gravadora.

Antes da internet, MP3,Youtube, I-Tunes, Spotify...  as bandas gravavam uma fita K7 demo com algumas musicas, batiam de porta em porta nas gravadoras e rádios e faziam shows praticamente de graça. Se algum produtor ouvisse a fita ou fosse ao show já era meio caminho andado para gravar um single. Quando os três jovens noruegueses já cansados de esperar, sem esperanças e sem dinheiro para continuar na Inglaterra preparavam suas malas para voltar para casa... a sorte deles muda radicalmente.

A trajetória da banda pode parecer a mais inocente de todas para aqueles que estão acostumados com sexo, drogas e rock’n’roll. Novamente, não espere por revelações bombásticas, dramas ou brigas.

Morten conta o básico: alguns namoros, assédios de fãs e uma ex que deu entrevistas para tabloides ingleses contando que o cantor tinha “hábitos sexuais estranhos” mas nada além disso. Lembra também do Rock in Rio de 1991 e uma aventura bizarra na Amazônia. É um livro voltado para fãs da banda e pessoas que viveram ou gostam muito dos anos 1980. Possui muitos pontos positivos e Morten é um cara bem otimista


Talvez essa maneira de ser; simples, tranqüila e reservada seja algo bem típico dos noruegueses.
E o amor e respeito que eles tem pela natureza também é notório.

“Somos movidos pelos hormônios, pela ansiedade e por segundas intenções. E não pela sabedoria resultante de uma infinidade de experiências. Há pouquíssima mente livre de dogmas por trás da maioria das coisas que fazemos. Infelizmente, para todos nós – e também para a natureza - , por meio de nosso sucesso nos tornamos uma monocultura agourenta na natureza. E para a natureza, que cuida de todas as coisas, nós nos transformamos em sua erva daninha.”




MY TAKE ON ME - MORTEN HARKET BIOGRAFIA 
AUTOR : MORTEN HARKET / TOM BROMLEY
EDITORA : FARO EDITORIAL 
ISBN : 9788562409936

quarta-feira, 29 de junho de 2016

IGGY POP - OPEN UP AND BLEED




Se existe um cara com tesão pela vida, esse cara é o Iggy Pop.
Aos 70 anos, continua na ativa, com direito a quebrar óculos na SPFW em 2015 e lançar um novo álbum com o cantor Josh Homme do Queens of Stone Age, intitulado “Post Pop Depression”.
Com shows marcados até Outubro de 2016, a turnê pode passar pelo Brasil, vamos torcer!

Nascido em Michigan, em Abril de 1947, James Newell Osterberg em sua juventude era um bom aluno, bem articulado e com certa popularidade entre os colegas. Ao formar a banda “The Iguanas” com os amigos de colégio, -  típica banda greasy rock anos 50, com direito a terninhos e brilhantina nos cabelos - James/Iggy descobre que sua verdadeira vocação não é uma carreira política como muitos de seus amigos e professores pensavam, ele nasceu para ser o Mr.Rock'Funking'Crazy'Roll

Depois de ler esta biografia você começa a pensar... "Como esse cara ainda está vivo?" São muitas loucuras e excessos para uma só pessoa: drogas, orgias, automutilação, brigas, internação em manicômio, maldição zumbi, mais sexo e... já falei das drogas? Sim, muitas drogas.

Em várias entrevistas, Iggy Pop declara que foi David Bowie quem salvou sua vida e carreira musical de uma espiral de loucura em que ele se encontrava após o final dos The Stooges no meio da década de 1970. A amizade de Iggy e David foi muito produtiva e inspiradora para ambos, o álbum “The Idiot” é considerado por muitas publicações um dos melhores álbuns de rock até hoje.




Entre altos e baixos, tanto na música como na vida pessoal, é incontestável dizer que: Sem Iggy Pop não existiria o Punk Rock.

O livro “Open Up and Bleed” escrito pelo jornalista Paul Trynka, que já foi editor da revista inglesa “Mojo Magazine”, fez uma boa pesquisa sobre a vida de Iggy Pop.

A biografia também tem seus altos e baixos, principalmente no começo do livro (nos quatro primeiros capítulos, precisamente) em que Paul Trynka descreve por várias páginas a geografia de Michigan e coleta depoimentos de pessoas que conheceram James/Iggy quando criança ou na juventude, sendo que estas não tiveram nenhuma influencia na sua vida pessoal ou carreira musical. Tem até a história de um “bilhete de amor” de uma colega de escola que nunca chegou as mãos do de Iggy que é citado na biografia!

Informações desnecessárias como estas podem desanimar até o fã mais fervoroso do cantor. Em muitos momentos pensei que estava lendo a biografia do MC5, tantas vezes a banda é citada nos primeiros capítulos. A partir do 5° capitulo existe até uma melhora na narrativa, por focar mais na parte musical, o fim dos “The Stooges” e a amizade com Bowie.

Não sei se o autor quis trazer mais material ou se distanciar de outro livro que é essencial para qualquer fã do punk, “Mate-me por favor” de Legs McNeil & Gillian Mccain, onde a história é contada através de várias entrevistas, e a “voz” de Iggy dá o tom da loucura que era viver a década de 1970. Em “Open Up…” os depoimentos do cantor são poucos e menos reveladores. 


Incrível pensar a quantidade de bandas, cantores e até escritores que Iggy inspirou nestas ultimas décadas, alguns estão aqui e outros já se foram há muito tempo ...

Só um livro para descobrir quem é Iggy/James é pouco, uma série de tv com no mínimo 3 temporadas pode ser um começo, porque ele ainda tem muita história para contar. Iggy Pop já mostrou que tem o corpo fechado e não vai parar tão cedo. Amém !


OPEN UP AND BLEED – A VIDA E A MÚSICA DE IGGY POP (2007)
AUTOR : PAUL TRYNKA
EDITORA :  ALEPH
ISBN : 9788576572770



domingo, 8 de maio de 2016

Patti Smith - "Linha M"





“Não é tão fácil escrever sobre o nada” diz o Cowboy para a escritora, o sonho em que eles se encontram pode ser tanto da escritora quanto do Cowboy, quem pode dizer? Antes que o sonho acabe ele conclui: “O escritor é o condutor”

E assim, a partir deste ponto, que Patti Smith nos conduz em seu livro 
“Linha M” (mental train ou mind train). A viagem começa no Café‘Ino, onde Patti nos convida para tomar um café preto com torradas e azeite e contar um  pouco da sua vida. Seus escritores favoritos, falar sobre literatura japonesa, relembrar um pouco de seu passado, seu marido já falecido, sua obsessão por seriados policiais e mostrar algumas de suas fotos Polaroid.

Uma das maiores qualidades de Patti Smith como escritora (assim como em todo sua carreira como compositora/poeta) é a sua maneira despretensiosa e ao mesmo tempo poética de contar uma história e passar a mensagem de forma simples, bela e clara.

O livro pode ser descrito como um diário que não segue uma linha cronológica. São idas e vindas entre o passado e o presente. E é através das fotos, que segundo Patti "são como as medalhinhas que os peregrinos colocam em seus rosários", que acompanhamos esta peregrinação para os túmulos dos escritores que ela tanto admira: Rimbaud, Genet, Plath e Brecht. “Eu tenho pilhas de fotos Polaroid, cada uma marcando meus passos, que às vezes espalho como cartas de tarô ou figurinhas de beisebol de uma imaginaria equipe celestial”.



Muitas passagens do livro são quase oníricas; o Cowboy dos sonhos de Patti aparece algumas vezes durante a jornada, lembrando mais um guia espiritual do que apenas um fruto imaginário de um sonho, alguém que a atormenta e também dá conselhos.

Patti Smith escreve sobre as pequenas coincidências que acontecem em sua vida: datas, lugares, livros, perder e achar coisas misteriosamente. Sua pequenas obsessões por cadeiras, canetas, objetos que se tornam talismãs.Coisas que possuem vida própria e precisam voltar para seu local de origem ou desaparecer para sempre.

Detalhes do cotidiano que nós não damos mais importância.
Estar atento aos recados que o mundo quer dar: conversas com um estranho na rua, se desapegar das coisas materiais, guardar as boas memórias em nossas mentes e corações.

Ao ler “Linha M” tente compara-lo a uma boa xícara de café, deguste aos poucos, tente sentir os aromas e nuances de cada capitulo sem pressa porque o livro tem só 206 paginas e acaba muito rápido. E acredite, você não vai querer que ele termine tão cedo.

“Como ficamos tão velhos? Pergunto ás minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram. Talvez eu viva tanto que a Biblioteca Publica de Nova Yorke  seja obrigada a me ceder a bengala de Virginia Woolf. Eu cuidaria da bengala para ela, das pedras de seu bolso. Mas também seguiria vivendo, recusando entregar minha caneta.”




LINHA M (2015)
AUTOR : PATTI SMITH
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS
ISBN: 9788535926934




sexta-feira, 15 de abril de 2016

Stephen King - "Sobre a Escrita" & "Coração Assombrado"




Aos 13 anos li meu primeiro livro “adulto”: “Christine”, uma edição de banca de jornal da Nova Cultural, depois “A incendiária”, “Carrie”, “O Iluminado”...
Com 15 anos comecei a pegar emprestado os livros do SK na biblioteca: “A Coisa” parte 1 e 2 (isso mesmo), “A Hora do Vampiro”, “Os Estranhos” e um dia a bibliotecária me disse: “Acho que esses livros não são para sua idade!” 

Não importava, eu era uma transgressora!!! Ler sobre assuntos que ninguém da minha turma queria saber, por medo ou mesmo falta de interesse. Violência, morte, demônios, loucura, fantasmas, terror, horror ... cheguei até a cogitar em não devolver nunca mais “As 4 estações” !!! Mas não fui tão rebelde assim...  

Tente imaginar um mundo sem internet, tv a cabo, revistas importadas... 
Assim era o começo dos anos 1990.

Descobrir quem era meu autor preferido não foi fácil, as únicas fontes de informação eram as  poucas entrevistas em revistas nacionais e jornais e se desse sorte ver uma matéria no “Fantástico”...sério!!. E foi a partir delas que me dei conta que Stephen King poderia ser meu vizinho, um professor ou o cara que você encontra no supermercado...por mais estranho que pareça, ele é um cara normal. 
  
A biografia não autorizada “Coração Assombrado” de Lisa Rogak, é uma das melhores biografias sobre Stephen King até hoje. 

A autora faz uma compilação de entrevistas para jornais, revistas e televisão, coloca tudo em ordem cronológica e narra a historia de forma fluida e leve. 
O livro é uma ótima fonte de informação sobre Mr. King que alias sempre foi um livro aberto e nunca escondeu seus medos: do escuro, de aranhas, da porta do armário aberta, palhaços ... e seus vícios; uso continuo de álcool e drogas durante os anos de 1980. 

A coisa foi tão séria que até hoje SK não se lembra de ter escrito “Cujo”, por exemplo.

Uma das polemicas que envolveram o escritor aconteceu no final dos anos 1990, quando SK resolveu retirar do mercado o livro “Rage”, por achar que poderia ser usado como “manual” por algum maluco de plantão.

Sobre a violência em seus livros ele deixa claro:
“Não acredito que alguma vez algum garoto tenha sido influenciado a um ato de violência por um Cd do Metallica, Marylin Mason ou um livro do Stephen King, mas acredito que essas coisas podem atuar como aceleradores. Aqui nos Estados Unidos existe a disponibilidade das armas. As armas são o cerne da questão. Existe uma cultura de violência no pais, e eu seria a ultima pessoa a negar que faço parte dela, mas eu sou apenas um filho da nossa cultura.”





Stephen King já  foi criticado por ser popular demais, verborrágico, escritor celebridade, rei do terror para adolescentes... O critico literário Harold Bloom, seu maior “inimigo”, declarou que dar um premio como o National Book Fundation para Stephen King era “Mais um degrau abaixo no chocante processo de estupidificar nossa vida cultural”.

E agora que Stephen King recebeu das mãos do Presidente Obama, a Medalha Nacional de Artes? O que você me diz Sr.Bloom?


Demorou 15 anos para “Sobre a Escrita” ser publicado aqui no Brasil.
Minhas esperanças já estavam perdidas há anos. Assim como o livro “Writing for Comics” do Alan Moore, “piratiei” o PDF de “On Writing”...não me julguem !

O que sempre me impressionou em sua escrita é o mesmo que os críticos odeiam: a maneira informal e simples de se expressar. Ele te chama para um bate papo em sua sala; “Ei, venha aqui, preciso te contar algo”. E ele faz isso com maestria, trazer essa intimidade e te transportar para a mente dele sem que você perceba.

O livro é dividido em duas partes, na primeira você encontra uma autobiografia onde King fala um pouco de suas influencias literárias, idéias, infância, seus vícios, sobre sua esposa Tabitha e seus filhos. E na segunda, dicas sobre personagens, o que usar ou não, “o advérbio não é seu amigo” e dicas de leitura. Quer ser um escritor de verdade? Uma das dicas de SK é escrever mil palavras por dia e tirar só um dia de folga na semana !

Inspirador e muito bem humorado, o livro tem só 255 páginas, (pouco para SK) mas o necessário para quem quer aprender com o mestre. 

Impossível não ficar com um sorriso no rosto, quando SK escreve : 
“Coloque sua mesa em um canto e, todas as vezes em que se sentar para escrever, lembre-se da razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É exatamente o contrário”

terça-feira, 12 de abril de 2016

MINI GUIA DE LEITURA - "A TORRE NEGRA" de STEPHEN KING




Sou fã do Stephen King há muito tempo e sempre ouço a seguinte pergunta: 
“E a série Torre Negra ? Nunca li nada do autor posso começar por ela?” 
A resposta é : “Depende...”
Não ajudei muito não é mesmo? 
Mas existe um porquê:

Por ser uma série de 7 livros e já concluída (?ou não?) para quem não está acostumado a ler sequências pode ser cansativa e por vezes confusa, e ao chegar ao 3° ou 4° livro, a pessoa pode desistir no meio do caminho. Ao perceber que isso acontece com certa freqüência, resolvi fazer um guia rápido para acompanhar a série e entender sua dinâmica.

1. Ler “A Dança da Morte” é essencial. 
Este clássico com mais de 1200 páginas foi escrito em 1978 e continua atual.O livro é divido em 3 partes, portanto você pode “dar um tempo” se quiser e retomar a leitura depois. Não dá para esquecer a história e conforme ela evolui, os personagens ganham vida e quando conhecemos suas histórias e entendemos suas personalidades é impossível esquece-los. O livro é sobre uma gripe que mata mais de 95% da população mundial e a correlação com a “Torre Negra” só fica obvia até você ler o 4° livro “Mago e Vidro” onde os universos dos dois livros se cruzam.O principal vilão da obra de King, o onipresente e onipotente Randall Flagg, aparece em a “Dança da Morte”de maneira significativa. É preciso ler para entender.

2. "Meu Deus !! Não quero ler um livro de 1200 páginas !!!" 
Tudo bem, você pode começar com “Os Olhos do Dragão”. Talvez este seja um dos livros menos conhecidos ou comentados do autor, infelizmente. Não é um livro de terror, mas sim uma fábula sobre o reino de Delain, Rei Roland e o feiticeiro Flagg. Inicialmente o livro foi voltado para o mercado juvenil mas na época não foi bem recebido pela critica e também por seus fãs (!) que só entenderam a relevância do livro depois que série a “Torre Negra” estava completa.

3. Após ler o 4° livro “Mago e Vidro” é necessário ler “O vento pela Fechadura” ?
Tudo vai depender de você ! Se já estiver apegado ao pistoleiro Roland Deschain e seu Ka-tet  e quiser postergar a jornada até o próximo livro...vale. Agora se você quiser ler após o final da série porque ficou com saudades dos personagens também vale! É uma história dentro de uma história, que explica muito sobre a personalidade de Roland e sua infância.Um livro que me emocionou bastante, muito bem escrito e com belíssimas passagens.

4. Você terá que ler “Salem’s Lot/A hora do Vampiro”
para entender o 5° “Os Lobos de Calla”
De todos os livros que acrescentam informações este não dá para pular ou deixar para depois.O personagem que está em destaque é o Padre Callahan e ao ler “Salem’s” você entende o que acontece em “Lobos” e vice-versa. Só a mente do mestre é capaz de fazer estas conexões loucas, um dos momentos mais incríveis da série, mas não o único...

Adendo: Pode ser spoiler ou não, sei lá...já se passaram mais de 10 anos então não é spoiler (será??)  Preciso falar de “Canção de Susannah” o 6° livro da série. Foi uma das coisas mais loucas e excepcionais que já li do SK ! O autor vira personagem do seu próprio livro e encontra com seus personagens. Muito do que aconteceu na vida de King está neste livro, de uma maneira ou de outra, mais ecos que reverberam entre as suas obras e agora a realidade, mas o que é real? Mais philipkdiano impossível.

5. Sobre o livro “Insônia”, não é uma leitura fácil. 
Não é para pessoas que nunca leram a obra de SK. 
Quando o li na época, +/- 1996, tive pesadelos. É serio!! Ao terminar fiquei confusa e assombrada, só fui descobrir o porquê depois de mais de uma década. É sobre envelhecer, encarar a morte, tentar entender o mundo espiritual, ele existe ou não? O que é loucura e o que é real? A Torre Negra aparece nestas visões do personagem Ralph Roberts, que começa a ter insônia e ver a áurea das pessoas ! Os mundos entram em colapso e a Torre é a conexão.

Espero que esse mini-guia tenha sido útil. 
Sei que deixei outros livros de fora, mas acredito que estes sejam os mais relevantes para acrescentar a série. Boa leitura !