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quinta-feira, 7 de junho de 2018

GUIA DE LEITURA >> Triplo Terror : escolha o seu


No mundo literário, o gênero terror/suspense/policial é um dos mais difíceis de agradar quem já acostumado com esse universo. Uma coisa é certa, nem sempre a historia será inédita: casa assombrada, demônios, maldição de família, vingança, rede de intrigas, envenenamento...O que vai prender o leitor até o final do livro são: personagens empáticos, clímax, pontos de virada, deixar sempre uma duvida durante a trama e principalmente não subestima-lo com explicações simplistas e ter um final descente.

Essa seleção de livros possuem todos esses ingredientes e mais algumas boas surpresas para o leitor mais exigente >>

O Vilarejo – Raphael Montes

Um livro que é facilmente devorado em 2 horas no máximo.
São 7 contos bizarros, todos tem um ponto em comum : um vilarejo no leste europeu que desapareceu do mapa misteriosamente.

Raphael Montes é muito habilidoso ao conectar todas as histórias e personagens, cada um com seu demônio interior e exterior. A cada página você vai sentir uma espécie de incomodo, receio e estranheza.Uma das grandes sacadas do autor é se colocar como alguém que está conhecendo a história junto com o leitor, um recurso que poucos escritores conseguem fazer, e é esse o gancho que faz você não largar o livro até o final. 

No prefácio, Raphael Montes diz que os contos podem ser lidos fora de ordem, mas acho melhor ler na seqüência e tentar se ater ao pequenos detalhes.Talvez pela ânsia de descobrir o que está acontecendo, você não consiga fazer isso na primeira vez.

Particularmente, já li o “O Vilarejo” três vezes, e sempre descubro alguma coisa que passou batido. Leitura altamente recomendada para fãs de clássicos do terror.

   
O Homem de Giz – C.J Tudor

Em seu primeiro livro, CJ Tudor consegue chamar a sua atenção com uma história que parece bem familiar e cheia de referencias as obras de Stephen King.

O que poderia ser um tiro no pé, torna-se a grande “sacada” do “Homem de Giz” que intercala capítulos entre o passado e o presente do personagem, também narrador da trama, Eddie Adams.

No melhor estilo “Conta Comigo” e “IT”, um grupo de amigos encontra na floresta um corpo desmembrado de uma jovem; e um detalhe, a cabeça não está no local. O crime irá assombrar a vida de todos os personagens durante trinta anos. Não, isso não acontece em Derry, no Maine. A história se passa na Inglaterra e os capítulos são intercalados entre os anos de 1986 e 2016.

Logo no começo, você percebe que o personagem principal Eddie tem algum problema de comportamento e também que ele não é um cara muito confiável. Isso fica evidente principalmente nos capítulos em que ele e os amigos são adolescentes. Existem pequenas mentiras ou verdades omitidas, coisas que a principio parecem insignificantes mas que sempre refletem de maneira negativa em alguém do grupo ou fora dele.

É interessante a maneira que a escritora costura esses pequenos detalhes. Porque no fundo nós poderíamos fazer o mesmo, ou por medo de contar a verdade ou por achar que uma pequena mentira não irá causar mal nenhum. O fator causa e efeito e suas consequências fazem a trama funcionar, até menos que o suspense ou terror.  

Para aqueles que devoram livros policiais, na metade do livro você já sabe quem é o assassino, mas mesmo assim você não entende bem quais são as reais motivações para o crime.

E o giz? Qual é a história? E a cabeça, onde foi parar ? Essas duvidas você só irá descobrir no final, não vou contar porque é spoiler !!!


Caixa de Pássaros – Josh Malerman

O livro surpreende por ser diferente em sua narrativa e também claustofóbico.
A ansiedade por algo que você não entende e não consegue ver está em cada capítulo.
É o medo primal do desconhecido e do escuro, o que é real ou imaginação.

Durante quatro anos, Malorie mora em uma casa com seus filhos, sem recursos de água, luz ou comunicação.Vive praticamente no escuro, todas as janelas estão lacradas por tábuas e cortinas.Anos antes, uma onda de mortes, foi relacionada a uma luz misteriosa vista pelas vitimas antes delas cometerem crimes ou suicídio. Durante o surto, muitas pessoas se juntaram em grupos para se proteger, mas nem sempre isso era uma garantia de segurança.

Em seu primeiro livro, Josh Malerman sabe trabalhar esses elementos muito bem.A trama é ágil e com muitos diálogos e sem muitas descrições do que pode ter acontecido no passado. Esse é o gancho da história, como aquela mulher que diz que vive em uma casa com duas crianças, durante anos; sem luz, quase sem alimentos e que precisa vendar os olhos para poder pegar água em um poço foi parar lá. O que aconteceu foi real ou histeria coletiva? Será que tudo já passou ou continua silenciosamente? E como ela vai conseguir sair de lá e tentar a sorte a procura um novo abrigo que talvez nem exista.

Josh Malerman consegue te prender durante grande parte da trama exatamente pela curiosidade, não é um livro de terror, mesmo que exista o fator sobrenatural, segue mais a linha do suspense psicológico. O livro foi adaptado para filme, estrelado pela Sandra Bullock _ ótima escolha_ e tem sua estréia pela Netflix para o segundo semestre de 2018. Mas é aquela história: leia o livro depois veja o filme.




CAIXA DE PÁSSAROS 
AUTOR : JOSH MALERMAN
EDITORA : INTRINSICA
ISBN : 9788580576528

O VILAREJO
AUTOR : RAPHAEL MONTES
EDITORA : SUMA DE LETRAS
ISBN : 9788581053042

O  HOMEM DE GIZ
AUTOR : C J TUDOR
EDITORA : INTRINSICA
ISBN : 9788551002933





     



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

MINI GUIA DE LEITURA - "Mr.Mercedes" de STEPHEN KING



Stephen King possui os títulos de mestre do terror e do fantástico.
E alguns de seus críticos mais ferrenhos gostam de um outro titulo: mestre da embromação.

Mas somente nós, seus fieis fãs, que dedicamos horas e horas lendo seus livros sabemos que King também é mestre em criar personagens que parecem tão reais e juntar duplas ou grupos tão improváveis mas que sempre dão certo. 

Alguns exemplos:
* Um pistoleiro sem os dois dedos da mão direita, um viciado em heroína, um menino de treze anos com seu guaxinim/cachorro de estimação e uma mulher sem as duas pernas (Torre Negra)
** Uma das duplas mais incríveis: um surdo mudo e um rapaz com problemas mentais (Dança da Morte) 
*** E uma amizade entre um banqueiro e um criminoso que não aconteceria fora das grades da prisão de Shawshank (Um sonho de liberdade)

     
Roland e seu Ka-Tet _Art by Jay Anacleto /  Tom e Nick art by Mike Perkins /  Filme: Um Sonho de Liberadade




Com a trilogia de Mr.Mercedes não poderia ser diferente, um policial aposentado e em péssimo estado de saúde, um jovem universitário e uma mulher com problemas de ansiedade e transtornos compulsivos.


Sobre a trilogia Bill Hodges :

Um dia Stephen King acordou e se deu conta que nunca escreveu um livro policial no melhor estilo de Sherlock Holmes ou desenvolveu alguma história com os elementos: assassinato, seguir pistas, juntar evidencias e solucionar o caso. Mas, pera aí...estou falando do mestre e ele nunca vai fazer algo convencional.

Cada história tem começo, meio e fim.
Se você não leu o primeiro livro “Mr.Mercedes” pode ler o segundo “Achados e perdidos” sem problema algum, já o terceiro “Ultimo Turno” é a continuação do primeiro, mas se você não leu nenhum dos anteriores vai entender a historia mesmo assim. Acredite, somente quem é mestre na escrita consegue esse feito.

“Mr. Mercedes” 
 Existe o fator sangue na espinha quando você lê “Mr. Mercedes”.
De uns tempos pra cá, vemos nos noticiários vários atentados terroristas em que um louco fundamentalista (ou só louco mesmo) pega um carro e atropela o máximo de pessoas que consegue.
Quando SK escreveu este livro alguns casos haviam acontecido, mas parece que agora esse numero aumenta cada vez mais, infelizmente. Será que ele previu o que iria acontecer nestes últimos anos? 

Podemos considerar o livro como o convencional policial gato e rato, só que desde o começo sabemos quem é o assassino. Então você me pergunta; “Qual a graça se já sei quem é o cara?” Ahh... você não faz a menor idéia da sua motivação e durante a história a coisa fica bem estranha, bem estranha mesmo...vai por mim. Nas ultimas vinte páginas SK dá uma virada na história e consegue escrever um dos finais mais incríveis e de tirar o fôlego para um livro de suspense.

“Achados e Perdidos”
A história gira em torno de livros, escritores e seus fãs. Mesmo com um começo muito bom o resto do livro não traz grandes emoções.O mínimo que posso dizer é que ele se arrasta bastante e tem vários momentos “flash backs” do primeiro livro. Se você ler logo na seqüência pode perder o entusiasmo na leitura. O ponto positivo é que conhecemos melhor o detetive Bill Hodges e sua assistente Holly Gibney e criamos uma empatia com os personagens. Só assim pra chegar até o final da historia, triste...  

“Ùltimo Turno”
Voltamos à historia do assassino da Mercedes, Brady Hartsfield. E agora sabemos que durante seu coma, ele desenvolveu poderes paranormais. É isso mesmo! Era pra ser uma uma thriller policial mas parece que SK não consegue deixar o terror de lado. A história é boa, com alguns elementos no estilo “já li ou vi isso antes” mas nada que compromete a leitura.O que mais achei interessante ou bizarro, foi a maneira que o assassino entra em contato com suas vitimas para que elas cometam suicídio. Na época que comecei a ler “Ultimo Turno” o desafio do “jogo” Baleia Azul já tinha feito algumas vitimas e estava se espalhando pela mídia de forma assustadora. Impossível não ver um paralelo com a historia e isso deixa uma pergunta no ar ...Será que Stephen King previu o futuro? De novo ???


MR MERCEDES
ISBN : 9788556510020   

ACHADOS E PERDIDOS
ISBN : 9788556510075

ULTIMO TURNO
ISBN : 9788556510181

AUTOR : STEPHEN KING
EDITORA : SUMA DAS LETRAS

domingo, 8 de maio de 2016

Patti Smith - "Linha M"





“Não é tão fácil escrever sobre o nada” diz o Cowboy para a escritora, o sonho em que eles se encontram pode ser tanto da escritora quanto do Cowboy, quem pode dizer? Antes que o sonho acabe ele conclui: “O escritor é o condutor”

E assim, a partir deste ponto, que Patti Smith nos conduz em seu livro 
“Linha M” (mental train ou mind train). A viagem começa no Café‘Ino, onde Patti nos convida para tomar um café preto com torradas e azeite e contar um  pouco da sua vida. Seus escritores favoritos, falar sobre literatura japonesa, relembrar um pouco de seu passado, seu marido já falecido, sua obsessão por seriados policiais e mostrar algumas de suas fotos Polaroid.

Uma das maiores qualidades de Patti Smith como escritora (assim como em todo sua carreira como compositora/poeta) é a sua maneira despretensiosa e ao mesmo tempo poética de contar uma história e passar a mensagem de forma simples, bela e clara.

O livro pode ser descrito como um diário que não segue uma linha cronológica. São idas e vindas entre o passado e o presente. E é através das fotos, que segundo Patti "são como as medalhinhas que os peregrinos colocam em seus rosários", que acompanhamos esta peregrinação para os túmulos dos escritores que ela tanto admira: Rimbaud, Genet, Plath e Brecht. “Eu tenho pilhas de fotos Polaroid, cada uma marcando meus passos, que às vezes espalho como cartas de tarô ou figurinhas de beisebol de uma imaginaria equipe celestial”.



Muitas passagens do livro são quase oníricas; o Cowboy dos sonhos de Patti aparece algumas vezes durante a jornada, lembrando mais um guia espiritual do que apenas um fruto imaginário de um sonho, alguém que a atormenta e também dá conselhos.

Patti Smith escreve sobre as pequenas coincidências que acontecem em sua vida: datas, lugares, livros, perder e achar coisas misteriosamente. Sua pequenas obsessões por cadeiras, canetas, objetos que se tornam talismãs.Coisas que possuem vida própria e precisam voltar para seu local de origem ou desaparecer para sempre.

Detalhes do cotidiano que nós não damos mais importância.
Estar atento aos recados que o mundo quer dar: conversas com um estranho na rua, se desapegar das coisas materiais, guardar as boas memórias em nossas mentes e corações.

Ao ler “Linha M” tente compara-lo a uma boa xícara de café, deguste aos poucos, tente sentir os aromas e nuances de cada capitulo sem pressa porque o livro tem só 206 paginas e acaba muito rápido. E acredite, você não vai querer que ele termine tão cedo.

“Como ficamos tão velhos? Pergunto ás minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram. Talvez eu viva tanto que a Biblioteca Publica de Nova Yorke  seja obrigada a me ceder a bengala de Virginia Woolf. Eu cuidaria da bengala para ela, das pedras de seu bolso. Mas também seguiria vivendo, recusando entregar minha caneta.”




LINHA M (2015)
AUTOR : PATTI SMITH
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS
ISBN: 9788535926934




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Patti Smith - Só Garotos



Algumas pessoas acreditam em Deus, outras na sorte, algumas gostam de usar frases “nada acontece por acaso” ou  “foi obra do destino”.

A jovem Patrícia Lee era uma adolescente sonhadora no final da década de 1960. Amante dos livros e da poesia, chegou a ser ameaçada pelas colegas de trabalho, um grupo de mulheres duras e alfabetas, foi chamada de comunista por ler Rimbaud, um autor estrangeiro. Patti não pertencia ao lugar que nasceu, Nova Jersey, precisava sair daquela cidade o mais rápido possível. Aos dezoito anos teve um filho que deu para a adoção e um ano depois, diante da estátua de Joana d’Arc, fez uma promessa para a Santa e para a criança que jamais conheceria; seria alguém na vida. 

Aos 20 anos Patti decide ir para Nova York.
E é agora que a mão de Deus ou a obra do destino acontece pela primeira vez em sua vida. Ao chegar na estação percebe que o preço da passagem é maior do que ela poderia pagar, sem dinheiro, resolve ligar para sua irmã.       E agora? Pedir ajuda para voltar para casa e sentir a vergonha da derrota?

Ela entra na cabine telefônica: 
“Mas ali mesmo, na prateleira embaixo do telefone, entre as grossas paginas amarelas, havia uma carteira branca de couro. Continha um medalhão e trinta dólares, quase uma semana de pagamento do meu ultimo emprego. Contrariando meu melhor juízo, peguei o dinheiro mas deixei a carteira no guichê das passagens na esperança de que a dona pelo menos viesse procurar o medalhão. Não havia nada ali que revelasse a identidade dela. Só posso agradecer, como tenho feito comigo mesma muitas vezes ao longo dos anos, essa benfeitora desconhecida, foi o sinal de boa sorte de uma ladra. Aceitei a doação da pequena carteira branca como a mão do destino me empurrando para frente.”  

Quando chega em NY, Patti não encontra seus amigos. Por algumas semanas dorme na rua, em parques, trens do metro e até em cemitérios. Divide sanduíches de pão com alface com um morador de rua e passa fome também. A cidade de NY que Patti nos transporta é caótica e decadente, mas não violenta, Era a época em que John Lennon pedia uma chance para a paz, os beatniks tomavam conta dos bares e também do LSD e da maconha.

A efervescência cultural e musical estavam em seu ápice e também na inevitável curva da queda. Logo o Flower Power morreria e o Punk Rock tomaria conta da cidade, e depois do mundo. E Patti Smith será uma das maiores responsáveis por essa mudança. 


Um Amor Para Toda a Vida

Já li muitas biografias de músicos, mas até hoje a de Patti Smith foi a que mais me emocionou. Patti sempre seguiu seus sonhos, passou por situações difíceis e nunca se colocou como vitima. Sempre se posicionou como uma artista, fugiu dos estereótipos de beleza, foi a voz de uma geração que não acreditava mais em promessas e precisava de uma nova direção.

O livro “Só Garotos”, é uma bela história de amor entre ela e seu amante/amigo Robert Mapplethorple, uma relação de amizade que durou até a morte de Robert em 1989.
O livro foi uma promessa que ela fez para Robert antes dele morrer, contaria a historia dos dois. E só podemos agradecer por ela cumprir esta promessa.

Eram dois jovens perdidos na cidade grande, produzindo arte de várias formas até encontrar seus caminhos. Aconteceram muitos encontros e desencontros, “casamento de mentira” para agradar os pais, a primeira separação do casal, devido ao interesse de Robert  por conhecer o submundo do sadomasoquismo e homossexualismo. A volta da relação, o companheirismo e a eterna devoção mútua como artistas e amigos.

“Ambos descobrimos que queríamos demais. Só éramos capazes de doar a partir da perspectiva do quem éramos e do que cada um tinha a oferecer. Separados, fomos capazes de enxergar com mais clareza que um não queria mais ficar sem o outro.”

Há alguns anos especularam fazer uma adaptação para um filme, agora os boatos são sobre um seriado. Acredito que seria interessante adaptar o livro sim, porque muitas coisas acontecem não só na vida dos dois, como ao redor deles.O Hotel Chelsea, quase um personagem no livro, por exemplo, poderia ser um filme a parte. Mas nada se compara a experiência de acompanhar Patti Smith em sua jornada de vida e descobertas através de suas próprias palavras. 



Só Garotos (2010)
Autor: Patti Smith
Editora:Companhia das Letras
ISBN : 9780060936228