Mostrando postagens com marcador Editora Aleph. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Aleph. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Sonhos Eletricos _ Electric Dreams / O livro e a série


Sonhos Elétricos – O Livro

As histórias de PKD são bem peculiares, até mais do que os de outros romancistas de ficção científica.Não se trata apenas de carros voadores, lasers ou robôs, o fator humano em sua obra é o principal; os conflitos, os sonhos, as decepções, a ( i ) mortalidade e a loucura.

Quando alguém que nunca leu PKD me pergunta por qual livro deve começar eu sempre indico “UBIK” e “Realidades Adaptadas”, agora posso acrescentar “Sonhos Elétricos” para a lista.
>>> Em breve: Guia de Leitura PKD aguardem !!!

Em sua vida, Philip K Dick escreveu mais de 120 contos e 36 romances. Ele escrevia compulsivamente, em parte para poder pagar suas contas e também para colocar todos aqueles mundos para fora da sua mente. Uma mente habitada tanto por fantasmas do passado quanto do futuro.

Ao ler “Sonhos Elétricos” você irá encontrar algumas de suas inquietações, sobre a guerra nuclear, o consumismo, a invasão de privacidade, aceitar a realidade que nos cerca ou procurar por uma outra. Aquela velha duvida: tomar a pílula azul ou a vermelha?

Até hoje não consegui encontrar nenhum escritor com a mesma loucura/genialidade de PKD. Diferente de Asimov, que era um cientista e trazia para a sua obra previsões mais tecnológicas, ou mesmo Arthur C Clarke que tinha uma pegada mais espiritual; talvez você encontre uma similaridade com a obra de Ursula K LeGuin que usava como fundo a ficção cientifica para escrever sobre assuntos mais profundos sobre a humanidade e seu futuro.

Não vou fazer a resenha de conto por conto.Você pode encontrar isso em outros sites que possivelmente irão atrapalhar mais que ajudar. No artigo em que faço um comparativo entre os contos e as adaptações apenas resumo as histórias, nada que interfira na sua futura leitura. Uma dica: leia com a mente limpa e aberta, assim você consegue viajar durante todo o livro. Basta dizer que todos os contos são ótimos, e com certeza você vai escolher os seus preferidos ao final do livro. Os meus destaques vão para: “Humano É”, “O Passageiro habitual”, “Argumento de venda”, “O planeta Impossível” e “Foster, você já morreu”. A única exceção foi “Autofab”, o conto que menos me cativou e que até ficou bem adaptado para a série. Mas isso você vai ler daqui a pouco!  


Pergunta : É preciso ler o livro antes de ver a série ?
Resposta : Não. São experiências bem diferentes.Mas sabe aquela velha frase: O livro é melhor...vale para este caso.
Pergunta : É tão ruim assim?
Resposta : Ficou razoável , acredito que os 10 diferentes diretores quiseram deixar sua “assinatura” e muitos perderam a mão e não respeitaram o texto original ou não foram coerentes com a obra de PDK
Pergunta : Vai ter spoilers nos comentários?
Resposta : Quem sabe...



Electric Dreams  - A série

A difícil arte de adaptar

Não deve ser fácil ser roteirista.
O roteirista precisa se “apropriar” da obra do escritor para adapta-la ao cinema, série ou um episodio com menos de uma hora, sem tirar seus elementos principais e personagens. É preciso ser fiel a história e ao mesmo tempo acrescentar ou retirar algumas partes. Um cirurgião plástico usa procedimentos bem parecidos, mas como já sabemos, existem as boas plásticas e aqueles que são um desastre total.

No livro “Sonhos Elétricos”, antes de cada conto, você encontra as explicações de cada roteirista de como o processo foi feito; o que foi mantido do texto original, as mudanças e adaptações. Recomendo ler após ver cada episódio, mas fique a vontade caso queira ler antes!


Aqui está a lista dos melhores aos piores >>
*** Boa adaptação
**   Ok , dá para encarar
*     Só se você estiver com tempo sobrando


*** Kill All Others (O enforcado desconhecido)
Homem sai na rua e vê corpo pendurado em um poste. As pessoas passam por perto e nem ligam. Incomodado com a situação ele começa a questionar os amigos, vizinhos e a sua mulher.Todos dizem para ele deixar isso para lá e não se importar. A adaptação foi bem inteligente em colocar o dedo na ferida em temas atuais como a política, o ódio gratuito pelo diferente, pelo estrangeiro e o medo da vigilância digital. Ficou com uma cara de episódio do Black Mirror, e ficou muito bom.  

É sério que vocês não estão vendo esse outdoor ?


*** Human Is (Humano é)
Marido violento e opressor, sai em missão a outro planeta e quando volta está totalmente diferente.Existe a possibilidade de um alienígena ter invadido seu corpo para poder sobreviver na colônia humana. Cabe a sua mulher denunciar ou não seu “novo” marido, que agora está atencioso e romântico, algo que ela nunca teve antes. A adaptação não mudou muito, existe o acréscimo de alguns elementos na história mas elas fazem sentido dentro do episodio. E temos nosso eterno Walter White, o ator Bryan Cranston no papel principal e com direito a cena sensual !


Loving the Alien


*** Impossible Planet (Planeta Impossível)
Senhora idosa, surda e com a saúde bem debilitada tem um ultimo desejo: conhecer o planeta Terra. Ela contrata dois pilotos não muito honestos para fazer essa viagem, mas os próprios pilotos não sabem as coordenadas para a Terra e procuram por algum planeta similar, para assim enganar a senhora e ficar com seu dinheiro. A estrutura principal do conto ficou e também seu final. Alias, é um dos mais curtos do livro, e a adaptação virou uma história de amor. Não, não ficou ruim, foi uma solução bem pensada e talvez esse seja seu maior ponto positivo.

Em algum lugar do passado...


*** Safe and Sound (Foster, você ja morreu)
Em um futuro onde a Guerra Fria não acabou e a possibilidade de uma ataque nuclear pode acontecer a qualquer momento, todas as famílias possuem abrigos nucleares, menos a família de Foster. Seu pai é totalmente contra comprar um abrigo porque ele acredita que a Guerra Fria não existe mais e os abrigos são muito caros e desnecessários. Enquanto isso, Foster sofre bullyng na escola e vive um medo constante de morrer porque não tem onde se abrigar durante um ataque.
Os roteiristas trazem a mesma história para o tempo atual e as mudanças são enormes: Foster agora é uma adolescente, no lugar da bomba temos os terroristas; o pai vendedor de móveis virou uma mãe ativista política e o abrigo nuclear é um superhiperplus incrível celular que todos precisam ter por “segurança” pessoal e da comunidade. Outro episódio que ficou com cara de Black Mirror mas respeita a essência da obra de PKD

Nem Steve Jobs deve ter imaginado um celular igual a esse !


** The Commuter (Passageiro habitual)
Bilheteiro de uma estação de trem vê um homem desaparecer na sua frente depois de dizer que a cidade que ele quer comprar a passagem não existe. Após alguns dias o mesmo homem reaparece pedindo a mesma passagem, o bilheteiro começa a questionar onde é esse lugar e quando diz ao homem que tal cidade não existe, o homem desaparece novamente. Não vou contar mais se não vira spoiler... Um conto que precisava apenas de uma modificação: ao invés de investigar sobre a cidade em uma biblioteca a pesquisa seria feita pela internet. Pronto, só isso ! Todos os elementos de fantasia, diálogos e personagens estão perfeitos. A adaptação virou um melodrama espírita/tecnológico sem sentido.O que salva é a atuação de Timothy Spall, se não fosse por ele o episódio seria até mais fraco.

Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon


** Autofac (Autofab)
Uma fábrica autônoma, que funciona apenas por robôs controlados por uma inteligência artificial, produz mais produtos do que as pessoas conseguem consumir e está esgotando os recursos naturais do planeta.Um grupo de pessoas vai tentar enganar essa IA para poder destruir a fábrica.O conto original é um pouco confuso e talvez o menos cativante em termos de história e personagens. Aparentemente o roteirista Travis Beacham achou o mesmo quando diz que :“Autofab” não era o conto que pretendia adaptar de inicio” mas conseguiu fazer um bom trabalho.

We're charging our battery And now we're full of energy


** The Hood Maker (O fabricante de gorros)
No futuro a policia usa os telepatas, ou teeps, para ler as mentes de possíveis inimigas do governo que querem causar caos ou rebeliões.Os “gorros” são bloqueadores contra os teeps, e estão sendo enviados para pessoas aleatórias por toda cidade.Um movimento contra a invasão de pensamentos se espalha pela cidade ao mesmo tempo que os teeps querem tomar o controle da coisas e eliminar as pessoas normais. Aqui temos um conto clássico de PKD que revisita o assunto de telepatia, os exemplos mais conhecidos são os precogs de “Minority Report” e em sua versão anterior, em UBIK.
Novamente, e até hoje não entendo porque gostam tanto de incorporar histórias de amor nos contos ! Aqui temos um romance entre uma teep, Honor e o investigador de policia, Ross. Existe a mudança de perspectiva pelo ponto de vista da telepata, ficou bom mas não ficou incrível.    

The Hood Maker : vários "easter eggs" da obra de PKD espalhados pela episodio


E aqui vai o premio para pior adaptação >> difícil escolher qual é o mais sem noção.
O site IMDb deu até umas notas ok... mas...sem chance! Por isso fica a dica, leia os contos, você vai gostar muito mais 

* Real Life (Peça de Exposição)
Só pela introdução feita pelo roteirista você sabe que deu merda: “Resta muito pouco do conto no episódio...” Na verdade não restou nada, ficou uma mistura de “Vingador do Futuro”com alguma serie policial de investigação bem fraquinha.Chega até a dar sono de tão arrastada e confusa.Os experientes atores Anna Paquin e Terrence Howard  não seguram o episodio e parecem que caíram de pára-quedas na história.

* Crazy Diamond (Argumento de Venda)
Outra grande decepção, porque o conto é tão bom e com momentos em que você pode até rir de nervoso com algumas situações. Quem adaptou foi Tony Grisoni (Medo e delírio em Las Vegas, Mindhunters) e tem até o esquisito que amamos, Steve Buscemi. Era quase certo que seria um bom episódio... só que não.Foi até difícil reconhecer qual conto tinha sido adaptado, uma mistura de elementos da obra de PKD com filme noir, alguma coisa kitsch dos anos 70, pesquisa genética e um final totalmente incoerente. Tem que ter muita paciência até chegar o final.

* The Father Thing (A coisa-Pai)
Ok, o conto não é um dos melhores ou mais originais de PKD , mas dava para fazer uma adaptação no mínimo decente. Acrescentaram um mini drama desnecessário entre pai e filho, umas crianças totalmente deslocadas dentro da trama e uma narrativa muito lenta e introspectiva sem propósito.Parece aqueles filmes bem chatinhos com crianças que passam na Seção da Tarde, a diferença é que temos alienígenas invasores de corpos.Dos três piores é o menos pior, mas continua sendo chato.  

Steve Buscemi morrendo na praia

Para quem leu até o final dessa enorme resenha, meu muito obrigada !!! Volte sempre ;)

SONHOS ELETRICOS
AUTOR : PHILIP K DICK
EDITORA : ALEPH
ISBN : 9788576573975



quarta-feira, 29 de junho de 2016

IGGY POP - OPEN UP AND BLEED




Se existe um cara com tesão pela vida, esse cara é o Iggy Pop.
Aos 70 anos, continua na ativa, com direito a quebrar óculos na SPFW em 2015 e lançar um novo álbum com o cantor Josh Homme do Queens of Stone Age, intitulado “Post Pop Depression”.
Com shows marcados até Outubro de 2016, a turnê pode passar pelo Brasil, vamos torcer!

Nascido em Michigan, em Abril de 1947, James Newell Osterberg em sua juventude era um bom aluno, bem articulado e com certa popularidade entre os colegas. Ao formar a banda “The Iguanas” com os amigos de colégio, -  típica banda greasy rock anos 50, com direito a terninhos e brilhantina nos cabelos - James/Iggy descobre que sua verdadeira vocação não é uma carreira política como muitos de seus amigos e professores pensavam, ele nasceu para ser o Mr.Rock'Funking'Crazy'Roll

Depois de ler esta biografia você começa a pensar... "Como esse cara ainda está vivo?" São muitas loucuras e excessos para uma só pessoa: drogas, orgias, automutilação, brigas, internação em manicômio, maldição zumbi, mais sexo e... já falei das drogas? Sim, muitas drogas.

Em várias entrevistas, Iggy Pop declara que foi David Bowie quem salvou sua vida e carreira musical de uma espiral de loucura em que ele se encontrava após o final dos The Stooges no meio da década de 1970. A amizade de Iggy e David foi muito produtiva e inspiradora para ambos, o álbum “The Idiot” é considerado por muitas publicações um dos melhores álbuns de rock até hoje.




Entre altos e baixos, tanto na música como na vida pessoal, é incontestável dizer que: Sem Iggy Pop não existiria o Punk Rock.

O livro “Open Up and Bleed” escrito pelo jornalista Paul Trynka, que já foi editor da revista inglesa “Mojo Magazine”, fez uma boa pesquisa sobre a vida de Iggy Pop.

A biografia também tem seus altos e baixos, principalmente no começo do livro (nos quatro primeiros capítulos, precisamente) em que Paul Trynka descreve por várias páginas a geografia de Michigan e coleta depoimentos de pessoas que conheceram James/Iggy quando criança ou na juventude, sendo que estas não tiveram nenhuma influencia na sua vida pessoal ou carreira musical. Tem até a história de um “bilhete de amor” de uma colega de escola que nunca chegou as mãos do de Iggy que é citado na biografia!

Informações desnecessárias como estas podem desanimar até o fã mais fervoroso do cantor. Em muitos momentos pensei que estava lendo a biografia do MC5, tantas vezes a banda é citada nos primeiros capítulos. A partir do 5° capitulo existe até uma melhora na narrativa, por focar mais na parte musical, o fim dos “The Stooges” e a amizade com Bowie.

Não sei se o autor quis trazer mais material ou se distanciar de outro livro que é essencial para qualquer fã do punk, “Mate-me por favor” de Legs McNeil & Gillian Mccain, onde a história é contada através de várias entrevistas, e a “voz” de Iggy dá o tom da loucura que era viver a década de 1970. Em “Open Up…” os depoimentos do cantor são poucos e menos reveladores. 


Incrível pensar a quantidade de bandas, cantores e até escritores que Iggy inspirou nestas ultimas décadas, alguns estão aqui e outros já se foram há muito tempo ...

Só um livro para descobrir quem é Iggy/James é pouco, uma série de tv com no mínimo 3 temporadas pode ser um começo, porque ele ainda tem muita história para contar. Iggy Pop já mostrou que tem o corpo fechado e não vai parar tão cedo. Amém !


OPEN UP AND BLEED – A VIDA E A MÚSICA DE IGGY POP (2007)
AUTOR : PAUL TRYNKA
EDITORA :  ALEPH
ISBN : 9788576572770